Trás os Montes nos Finais do Sec. XVIII. JOSÉ M. AMADO MENDES. Parte 002

Trás os Montes nos Finais do Sec. XVIII. JOSÉ M. AMADO MENDES. Parte 002

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3. A economia de Trás-os-Montes nos finais de Setecentos
Desnecessário se tornará acentuar que são apenas razões de ordem metodológica que nos levam a tratar, em separado, vários aspectos da economia transmontana no período em análise. Efectivamente, se em qualquer economia de Antigo Regime se torna difícil detectar a separação entre os vários fenómenos, tal dificuldade acentua-se ao tratar de regiões como a trasmontana, onde as condições específicas e o isolamento - já referido - não permitem uma distinção nítida entre as diversas funções e actividades económicas.
Comecemos por abordar as culturas mais significativas e a paisagem agrária.
A cultura dos cereais ocupava naturalmente um lugar de relevo na província. Sendo embora a cultura do centeio, cereal pouco exigente, éa mais praticada em Trás-os-Montes, também as do trigo, da cevada ,do milho ali se efectuavam.
Num esboço que a distribuição geográfica dos cereais indicados pela província do Nordeste, podemos dizer que o centeio tinha a sua principal implantação no Alto Trás-os-Montes! onde predominam a altitude e o clima frio.
Na Terra Quente, culturas mais vantajosas e de tipo mediterrâneo- vinho, azeite e trigo- disputavam a primazia à do centeio, apesar de este cereal ainda exercer, então, um papel considerável na alimentação humana, como cereal panificável.
O trigo, por sua vez, produzia-se em menor escala na província trasmontana. Columbano Ribeiro de Castro em muitos casos não o aponta entre as produções de determinadas localidades, referindo-se noutros a «algum trigo». O clima e a pobreza do solo da província, salvo com certas zonas restritas, não eram favoráveis da cultura deste cereal. No Vale da Vilariça e na Veiga de Chaves, zonas excepcionalmente férteis, praticava-se a cultura do trigo, como acontecia noutras localidades de baixa altitude e clima temperado.
Deixando a cevada, cujo papel na alimentação animal não era dispiciendo , passemos a considerar o milho grosso ou maís. Pelos testemunhos de que dispomos, verifica-se que a «revolução do milho apenas havia principiado em Trás-os Montes no período : a que nos reportámos. Introduzido no Oeste da província , Cordilheira Central no século XVIII, compreende-se que sejam as alusiies que lhe faz o «juiz demarcante», que alude ~ produção deste cereal apenas em Vinhais, Frechas, Vila Real. Rui Teixeira Outras fontes provam que a produção do milho se fazia, de forma muito limitada , em Moncorvo e seu termo com mais larga escala, na parte ocidental transmontana.
Assim, em Godim produzia-se «com grande fertilidade milho grosso», no concelho de Chaves o milho ocupava o terceiro lugar no quantitativo dos produtos colhidos, enquanto no Barroso se ia efectuando lentamente a sua introdução já nos inícios do século XIX.
À luz do exposto, parece lícito concluir ser então a cultura do maís em Trás-os-Montes pouco significativa, notando-se embora estar em aumento a sua difusão, a qual se fazia no sentido Oeste--Este, devido às características do solo e clima da zona ocidental transmontana, tão semelhantes às do Minho, e ao facto da divulgação daquele cereal se ter efectuado principalmente a partir desta última província, onde já então ocupava lugar de relevo entre as restantes culturas. Posteriormente, o maís tem vindo a introduzir-se em terrenos outrora incultos - a extensão de baldios e bens dos concelhos era considerável ou destinados anteriormente à cultura do centeio.
Tal como a do maís, também a cultura da batata era intraduzida no Nordeste do País no final de Setecentos. De forma análoga ao que sucedeu em Espanha- onde a cultura da batata, iniciada de forma sistemática na Galiza em 1768, irradiou depois para Sul , também em Portugal o referido tubérculo s.e difundiu de Norte para Sul, sendo, na transição do século XVIII para o XIX, cultivado nas províncias de Trás-os-Montes e da Beira.
Todavia, conjugando a ausência de informação sobre a batata no manuscrito de Ribeiro de Castro, com as notícias de M. Link e de A. Balbi, conclui-se que a produção trasmontana da batata, no final de Setecentos, era ainda insignificante - excepto· numa ou outra zona, como a Veiga de Chaves ou a região do Barroso , sem apresentar grande semelhança com o incremento que viria a ter nos séculos XIX e XX.
A mais importante produção transmontana, do ponto de vista comercial, era a do vinho. Produzido um pouco por quase toda a província- à excepção das alturas do Barroso, localizava-se contudo na região duriense o principal centro vinhateiro, onde era produzido o célebre vinho do Porto.
Como dispomos já de estudos bastante satisfatórios sobre a viticultura desta região apenas destacaremos uma ou outra passagem do Mappa de Ribeiro de Castro sobre o assunto.
O Autor, além de corroborar o que já conhecíamos, através de outras fontes, sobre o excepcional desenvolvimento da produção vinícola em diversas localidades- Carrazeda de Ansiães, Alijó, Barqueiros, Canelas, Favaios, Fontes, Mesão Frio e Santa Marta de Penaguião , informa-nos ainda que se haviam feito novas plantações em Abreiro, Goivães e Provezende , donde se pode concluir que a cultura da vinha continuava a expandir-se em vários locais da região.
Fora do Alto Douro era reduzida a produção de vinho, sendo este, na maior parte dos casos, consumido localmente. Verificavam-se, no entanto, algumas excepções, como acontecia em Vilar Seco da Lomba, donde se exportava vinho para a Galiza, e em Vinhais, cuja produção ultrapassava a de qualquer outra vila da comarca de Miranda, a avaliar pelo subsídio literário que pagava.
Embora se tivessem verificado alguns progressos a partir do período aqui tratado, na sequência do que se vinha fazendo porque geralmente se tem posto muita quantidade de bacelo, rompendo para esse fim montes e terras de toda a qualidade, a natureza do solo, o clima e a altitude não têm permitido grande expansão à videira fora da Terra Quente, visto tratar-se de uma planta mediterrânea. Por outro lado, a filoxera, que apareceu em Bragança em 1882, em sete anos tinha devastado a maioria dos vinhedos de Além Tua.
A olivicultura, por seu turno, apresentava-se já um pouco divulgada por Trás-os-Montes, embora ali tivesse sido introduzida em data não muito remota. Referenciada pelo Dr. João de Ramos em Mirandela e Freixo de Espada à Cinta em meados do século XV e por Manuel Severim de Faria em Moncorvo nos inícios do século XVII" , no período que abordamos tinha atingido várias outras localidades das quatro comarcas trasmontanas.Assinale-se, contudo, que a produção oleícola de Trás-os--Montes não só era insuficiente, como estava ainda muito aquém das potencialidades da província em tal domínio. Mais tarde, muitas oliveiras vieram a ser plantadas em diversas localidades da Terra Quente ou mesmo da Terra Fria, desde que a altitude e o clima o permitissem.
A castanha, progressivamente substituída pela batata, ocupava lugar relevante entre as produções dos planaltos trasmontanos. Além do fruto, que entra na alimentação do homem e dos animais, o castanheiro dá boa madeira, susceptível de aplicações diversas.
A existência do castanheiro é mencionada por Ribeiro de Castro em vários sítios do Alto Trás-os-Montes- Mogadouro, Paço, Vinhais, Monforte de Rio Livre, Lamas de Orelhão e Vimioso - , destacando uma «mata» de castanheiros no couto de Ervededo- ao Norte de Chaves-, com mais de dois mil pés, que pertencia ao Arcebispo de Braga.O castanheiro, cuja difusão se terá mesmo intensificado durante grande parte do século XIX, veio a ser terrivelmente dizimado a partir de finais do século, devido à acção da doença que então o atacou, a qual terá aparecido no distrito de Bragança por volta de 1900.
O pinheiro estava então pouco divulgado em Trás-os-Montes, apesar de a sua falta se fazer sentir. Acerca deste assunto, escreveu Ribeiro de Castro ao tratar de Santa Marta de Penaguião:
devem cuidar na plantação d'arvores e sementeiras de pinheiros, pelos montes, o que lhe serve não só para queimar, mas para erguer ou empar as vides, em que fazem concideravel despeza.
A difusão do pinheiro continuou a propagar-se na província depois do final de Setecentos. Outra árvore que deve ser mencionada, pela sua relação com indústria da seda, é a amoreira. Indicada, por exemplo, em Mogadouro, estava todavia espalhada por diversas outras localidades- Chacim, Monforte de Rio Livre e Bragança-, como se pode deduzir pela alusão às sedas entre as respectivas produções.
No que concerne à comarca de Moncorvo, temos indicações mais precisas , graças aos prestimosos trabalhos de José António de Sá. Nesta comarca havia em 1790, 45 088 amoreiras.
Também o carvalho- cuja casca era utilizada na indústria dos curtumes - se distribuía por várias zonas da província, tal como no Barroso, o mesmo sucedendo com outras espécies arbóreas. No entanto, além das condições mesológicas estarem longe de ser óptimas para o desenvolvimento da cobertura vegetal na maior parte do ano, as devastações já então se faziam sentir em certas zonas, devido aos incêndios e ao consumo de lenhas.
O sumagre- utilizado na curtimenta- e o linho são também indicados por Columbano Ribeiro de Castro. O cânharno, outrora muito cultivado sobretudo no Vale da Vilariça e utilizado na própria cordoaria de Moncorvo, era em 1796 vendido para outras localidades , atingindo ainda a sua produção 12 000 arrobas. Veio a ser depois substituído por culturas de maior rendirnento.
Em conclusão: a paisagem agrária trasrnontana dos finais do século XVIII distinguir-se-ia da dos nossos dias pela extensão de terrenos ainda incultos , por urna maior proliferação do castanheiro e, ainda que mais rnodernarnente, do linho e do cânhamo este no Vale da Vilariça, por uma menor difusão da vinha, da oliveira e do pinheiro e, fundamentalmente, da batata e do milho, que principiavam a alcançar a região do Nordeste.
Relativamente li propriedade rural, encontramos cm Tras-·os-Montes, no período focado, os três sistemas indicados por Moraes Soares em meados de Oitocentos : a vinculação, o emprazamento e a alodialidade.
Os vínculos - morgados e capelas -ainda eram bastante frequentes, tal como sucedia com o emprazamento ou aforamento. Este era frequentemente sugerido o que se· integrava na campanha contra o colectivismo agrário dos fins do século XVIII e inícios do século XIX. Por outro lado, um dos factores que justificava a necessidade da existência de baldios- as pastagens- encontrava-se, em certos casos, ultrapassado, devido à abundância de pastos. O colectivismo agrário trasmontano, cuja origem remonta aos aforamentos colectivos das origens da monarquia, encontrava-se assim em vias de regressão no final do século XVIII, no que, diga-se de passagem, não constituía excepção.
A propriedade individual, por seu lado, ocupava uma área bastante inferior às restantes. Não sabemos, no entanto, qual a posição da província trasmontana no contexto peninsular, onde a propriedade individual, no seu conjunto, abrangia um terço da colectiva .
A propriedade agrícola estava bastante dividida no Nordeste português. Embora a fragmentação da propriedade se tenha vindo a acentuar a partir daquela altura, já em fins do século XVIII predominavam na província a pequena e a média propriedade -
sendo a grande uma excepção.
Assim, a percentagem de lavradores em relação ao número de fogos é bastante elevada, chegando a atingir os 50,5 na comarca de Miranda. Por outro lado, a percentagem de jornaleiros, também em relação ao número de fogos, é relativamente baixa, para uma economia de Antigo Regime. Conjugando estes dois elementos, parece podermos concluir tratar-se, na maioria dos casos, de pequenos lavradores que, fazendo simultaneamente o serviço da lavoura nas suas propriedades, prescindiam deste modo de mais elevado número de jornaleiros.
Finalmente, parece esclarecedor o facto de as comarcas de Vila Real e Moncorvo apresentarem as mais baixas percentagens de lavradores e as mais altas de jornaleiros, o que se relacionará com uma maior concentração da propriedade agrícola na região duriense e com a necessidade de mais elevado número de braços nas tarefas vitivinícolas. O número de trabalhadores rurais era ainda assim insuficiente, pois havia necessidade de recorrer a mão-de-obra proveniente da Galiza.
Intimamente relacionada com a agricultura estava a criação de gado. Este não só prestava relevantes serviços- na lavoura e nos transportes-, como fornecia ainda a carne e matérias-primas para as indústrias de lanifícios, lacticínios e curtumes. Por esse motivo, são numerosas as referências feitas ao gado por Ribeiro de Castro.
Praticada, embora, por toda a província, a pecuária revestia-se de excepcional importância nas zonas montanhosas das comarcas de Miranda e Bragança. É nestas que têm os seus centros de produção as célebres raças de gado bovino, mirandesa e barrosã.
Além do boi, «O maior e melhor amigo do lavrador trasmontano», no dizer de Montalvão Machado, criava-se em Trás-os--Montes o cavalo, então de alta importância para os transportes .
A coudelaria de Miranda, que adquirira certa reputação, tinha no final de Setecentos cinco ramos, havendo em cada um 35 éguas e um cavalo de cobrição. A de Bragança, por sua vez, compreendia nove ramos abrangendo 183 lugares e tendo um
total de 315 éguas.
Também a criação de gado suino, cabrum e ovelhum deveria estar muito disseminada pela província, informando Ribeiro de Castro frequentemente da existência de boas lãs. Indica-nos, de igual modo, o número de pastores de cada povoação, distribuindo-se assim os 1 250 da província pelas quatro comarcas:
Miranda- 382; Moncorvo- 540 ; Bragança - 87; Vila Real-241. Perante estes números, que ilações poderemos tirar?
Como já tivemos oportunidade de referir, não parece existir uma relação directa entre o número de pastores e a criação de gado numa determinada localidade. Só assim se explica o reduzido número de indivíduos dedicados à pastorícia na comarca de Bragança, comparativamente ao que sucedia na de Moncorvo mesmo na de Miranda.
O facto de em Rio de Onor Guadramil não existir então qualquer pastor, ~ torna ainda mais verosímil a hipotese aventada.
A fim de não alongar demasiado este trabalho, não trataremos aqui da industria- aliás estudada recentemente por Fernando de Sousa e por nós próprios , passando assim a considerar em seguida o comércio e os meios de comunicação.

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