Audio Livro e Texto. Miguel Torga - Os Novos Contos da Montanha(13) - Renovo.

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- A Lucinda? - perguntou o Pedro, coberto de suor, lívido, a acabar de sair de uma modorra de morte.
- Está boa... - respondeu a mãe., com a naturalidade que pôde.
- E porque não vem cá?
- Isto pega-se, filho. Ela bem queria; eu é que não consinto.
Uma onda de tristeza, que lhe embaciou a imagem da namorada, atravessou os olhos febris do rapaz. Depois, exausto do esforço de vir à tona do poço, desceu as pálpebras e caiu na sonolência em que vivia há dias.
No princípio da epidemia, de ouvido atento, ia vigiando o mundo através do dobrar do sino.
O som a entrar no quarto abafado e ele a inquirir, inquieto:
- Quem foi? minha mãe?
- O Belmiro. - O pai ou o filho? - O pai. Cuidadosa, a Felisberta varria implacavelmente o caminho de todos os espinhos que pudessem magoar as justas esperanças da mocidade. Só rodeado de gente da mesma geração, nascida e feita nas mesmas festas, nos mesmos magustos e nas mesmas ilusões, o sangue jovem pulsa com vontade. E a Felisberta, docemente, ia matando os velhos e as velhas da freguesia, para deixar ao doente, intactas, as fontes da alegria.
- E hoje? - queria ele saber de novo, sôfrego de uma palavra que fosse uma garantia da imunidade dos seus vinte anos.
- O Pinto. A única, distinção que o sino fazia era entre homens e mulheres. E bastava à Felisberta ter debaixo da língua um nome de sessenta invernos, capaz de justificar as três ou as cinco badaladas, para aquietar aquele atento desassossego.
O mal, porém, alastrou de tal modo que se tornou impossível tocar a todos os defuntos. Além disso, o sinal fatídico acabara por ser um aviso a cada moribundo. E o prior, rogado e convencido, mandou calar o bronze.
- De hoje em diante não há mais dobre a finados - ordenou ele. - Toda a gente que tem doentes em casa reclama., e tem razão. De mais a mais, pelo caminho que isto leva, nem a tocar de manhã à noite se dava vazão.
- Pronto, acabou-se! - respondeu, obediente, o sacristão. - Vão empandeirados como animais, mas lá vão.
O padre olhou em silêncio o rosto amarelo do Eusébio, a pensar na força dos sentimentos humanos. Até aquela alma rude sabia que, embora triste, sempre era uma nota de vida e de dignificação o sino a anunciar um trespasse humano. A vibração plangente descia da torre, propagava-se pelas veigas a cabo, e levava a cada caule, a cada folha e a cada fruto um estremecimento melancólico mas pulsátil, que significava ainda força, respiração e, sobretudo, protesto. E quem cavava, lavrava e suava nos lameiros, não sentia no silêncio conivente do sino o vazio do pó e do esquecimento.
- Morreu um de Feitais... Pela coragem com que puxavam a corda do badalo, pela maneira como repicavam ou dobravam, sabia-se a que terra pertencia o cadáver que baixava à cova. Cada aldeia enterrava singularmente os seus mortos. Os de Leirosa, bonacheirões, pacíficos, pobres, tocavam pouco, devagar, sem vontade e sem brio. Mas já os de Fermentões, espadaúdos, carreiros e jogadores de pau, homens de bigodaça e de mau vinho, davam sinais de outro modo, viril e triunfalmente. E nestas variações o próprio defunto encontrava o seu húmus, ia desta para melhor amortalhado em verdade nativa.
Infelizmente, o tempo feliz dessas expressões fraternas passara. Nas freguesias à volta era o que se sabia. E em Vilalva, depois da caminhada de expiação que o abade ordenara a ver se conjurava o mal, começou também a razia. Ou porque se juntou gente de toda a parte e pegaram a peste uns aos outros, ou porque a noite estava fria e ia tudo descalço e desagasalhado pela serra acima, ou porque o destino assim o quis, o certo é que no dia seguinte a povoação ardia em febre.
O prior, apenas chegou a notícia do flagelo que dizimava as povoações vizinhas, não esteve com meias medidas:
- Aqui a solução é implorar o auxílio do nosso padroeiro Mártir S. Sebastião, num acto colectivo de desagravo e penitência.
- Se o remédio é esse... - responderam todos. E logo no outro dia à noite, pois não havia tempo a perder, pelos Pousados fora parecia uma ronda de fantasmas.
Ia à frente a bandeira das Santíssimas Almas, pintada a alvaiade e a zarcão, onde se via quase ao natural o Arcanjo S. Miguel a pesar pecados: uma balança de doceira, o fiel a descair para o lado das chamas, e no prato de baixo um meio corpo aflito, a ver-se no inferno. Vinha depois, ajoelhado no seu andor, de cruz às costas, pálido e terrível, vestido de roxo e de severidade, o Senhor dos Passos. Só de olhá-lo, uma pessoa sentia-se perdida.
Seguia-se o andor do orago, com o santo nu, atado a um poste e cravado de setas. A síntese perfeita da vulnerabilidade humana, que todos sentiam. Por fim, a fila interminável de poviléu. Velhos e novos, descalços, cobertos de lençóis, as mulheres de coroas de silva à cabeça, e os homens de cordas de carro à cinta e ao pescoço, e a sopesar ferros de arroteio, um, dois, três, quatro, seis até, conforme a força, a fé e o número de filhos.
Era uma caminhada desumana para o outro mundo, branca, fúnebre, fantástica e resignada. Irmanados no mesmo sentimento de perdição, bons e maus gemiam em coro a cantilena que o padre orquestrava, roucos, abatidos e apavorados. Nas mãos inocentes ardiam círios e archotes, onde a esperança, batida pelo vento, tremeluzia inquieta. E em todos, um sincero arrependimento de culpas horríveis que não tinham.
Mas ou do frio, ou do ajuntamento, ou castigo, o resultado de tanta humildade e sacrifício foi a aldeia acordar com os pulmões tomados.
- Vão chamar o médico! Vão chamar o médico! - clamavam agora, uma vez que o santo protector visivelmente os abandonara.
Infelizmente, nem o doutor lhes podia valer. Como frutos maduros abanados por rabanadas de vento, caíam aos magotes na enxerga. E no dia seguinte, ou pouco mais, marchavam para a sepultura, desiludidos do céu e da terra.
A princípio o sino dava sinal e, ao som condoído da sua voz, o prior ia buscar o defunto a casa., e havia um lugar para cada fiel na terra sagrada do cemitério. À medida, porém, que a desgraça alargou, as garantias paroquianas foram perdendo a força. A torre calou-se, o padre já não fazia os levantamentos, e as valas eram no adro, e até numa vinha da residência, benzida à pressa. Sem o alarme dolorido do campanário, a morte perdera a solenidade, a individualidade e a santidade. Juntavam-se no largo pobres e ricos, amigos e inimigos, dez e mais, e o prior, de lenço no nariz, a defender-se da pestilência, conduzia o cortejo à igreja, onde os encomendava na mesma oração rápida e niveladora.
- Não morreu mais ninguém?! - estranhava o Pedro, como um caracol que pusesse cautelosamente os cornos de fora, a sondar o silêncio.
- Nunca mais ouvi o sino.
- Não, filho. Não. A aldeia parecia um pinhal devastado por um ciclone. Casas inteiras despovoadas, famílias exterminadas até à raiz, a flor da mocidade ceifada como trigo maduro.
A pobre Felisberta tinha pago o seu tributo com três filhas, dois netos e o marido.
Restava-lhe apenas aquele filho, que a cada instante parecia querer abandonar a luta e a cada instante a renovava. E todo o seu instinto de mulher estava ali, suspenso da respiração e dos olhos da última semente.
- A Lucinda? Porque não vem? - era o gemido dele, mal acordava.
- Ainda é cedo. Esteve à porta de manhã a saber de ti, queria ver-te à fina força, mas disse-lhe que tivesse paciência.
Já não restava nenhuma das raparigas casadoiras da aldeia. Como flores crestadas por geada traiçoeira, uma a uma, foram deixando tombar no caule a cabeça gentil. Uma visão de fim do mundo, se a Felisberta não soubesse no mais íntimo do cerne que nada estava perdido desde que a sua própria seiva persistisse.
- Come, filho. Faz por engolir... A trovoada rondava ainda no ar, mas já distante e sem força. Apesar disso, o sino mantinha-se calado, com medo de acordar a morte.
- Não me apetece.
- Ora não te apetece! Vai teimando. Era difícil encontrar outra vez as palavras esquecidas, a razão aparente das cousas, o sentido simples de tudo. A vida parecia começar de novo, hesitante, sem saber o caminho.
- Estás aqui, estás melhor, vais ver.
- E de que vale? Antes tivesse ido com o pai, com as minhas irmãs e com os meninos. O peito da Felisberta queria estalar de angústia. Mas já não havia tempo para mais desesperos.
- Cala-te, filho. O que lá vai, lá vai.
O valor da desilusão sabia-o ela. Agora urgia descobrir o sabor da confiança.
- Ainda havemos de ter muitas alegrias. Deixa lá!
- Não diga isso, mãe. Alegrias!
- Digo e torno a dizer. Mastiga, mastiga, filho.
- E a Lucinda?
- Não tenhas pressa. Deixa ver se isto varre mais.
- Mas não tem morrido ninguém! o sino nunca mais tocou!.
- Olha, toca agora. Repenicava de verdade o velho amigo e eram sinais de baptizado. A aldeia, numa paz de corpo sangrado e combalido, não se esquecera da vida. E ele quebrava a mudez prudente, e abria-se num contentamento apressado, cristalino, que inundava tudo de esperança.
- De quem será? - Seja lá de quem for! O que se precisa cá é de gente.
Amparado nos braços velhos e amorosos da mãe, o rapaz chegara-se à janela e olhava as leiras em pouso, as casas fechadas e o largo deserto. O tamanho da desgraça entrava pelos olhos dentro.
- A Lucinda morreu, pois morreu, minha mãe?
O sino repicava sempre, alegre, festivo, prometedor.
- Há mais raparigas no mundo. Não te aflijas. As terras, lá fora, pediam fé e coragem. Pelo menos a fé e a coragem que a mãe tinha, sem homem, sem filhas, sem netos, cheia de lágrimas, de dívidas, e cansada até à última fibra do coração.

Audio Livro e Texto. Miguel Torga - Os Novos Contos da Montanha(13) - Renovo.