Filme de Sinde Filipe de 1974 Conto de Miguel Torga(6) - O Leproso (Video)

Filme de Sinde Filipe de 1974 Conto de Miguel Torga(6) - O Leproso (Video)


 

Texto. Miguel Torga - Os Novos Contos da Montanha(6) - O Leproso.

Foi no Doiro, numa cava. Ao meio-dia, a Margarida veio trazer o jantar, e embora a sardinha salgada e o caldo de gravanços tirassem a coragem ao mais pintado, a cara da rapariga desanuviava os horizontes.
Era nova, sadia, alegre e de resposta sempre na ponta da língua. Por isso sabia bem dar-lhe um apertão, passar-lhe sornamente o braço pela cintura, e ouvir-lhe depois os protestos vivos e desembaraçados.
- Ó seu alma do diabo, você cuida que isto é comida de cães ?
Todo o eito se ria, a moça continuava a distribuir as tigelas, e a fome, a fadiga, a injustiça, e as demais inclemências da natureza e dos homens, ficavam esquecidas por um momento.
- Toma lá tu, meu pinga-amor!
Era a vez do Julião, e o rapaz, que de facto olhava a Margarida com olhos de carneiro mal morto., não resistiu à tentação de lhe tocar no seio com as costas da mão.
- Ó meu leproso dos infernos! Olha que eu atiro-te o cesto ao focinho!
Houve um largo riso de galhofa, mas houve também um estalo na consciência do Julião. Leproso!
A sua íntima inquietação, a sua desconfiança contínua e já velha, ouviam pela primeira vez uma resposta, trágica como uma sentença de condenação: leproso!
Havia muito que qualquer coisa em si medrava como o Fungo nas espigas verdes.
Cresciam-lhe na cara gomos de carne dura, insensível e vermelha. Desconhecia, porém., a gravidade do mal, e ninguém, até ali, tivera a crueldade de lho nomear. Amofinado de angústia, estudava ao espelho, com miúcias de investigador, as subtis modificações da expressão, a transfiguração progressiva do rosto, mas o chamadoiro da sua desgraça era um mistério. E o que o coração temia sem saber, o que a razão não descobrira claramente, estava ali irreparável e cruel: leproso!
Calou-se, engoliu a custo duas garfadas, foi pôr a malga quase intacta no cesto, e sentou-se a uma sombra, a bater estupidamente com um pedaço de pão no moirão da ramada.
- Ó Julião, tu parece que não esperavas pela resposta? - gracejou um companheiro.
- Não. Eram todos amigos, daquela amizade possível entre gente rude e sacrificada, sem licença para aventuras intensas do coração e do entendimento. Escravos de uma terra hostil e de uma sociedade hostil, simples e toscos instrumentos de produção nas mãos injustas da vida, como poderiam eles descer à grande fundura dos sentimentos limados e gratuitos? Gostavam dele como de um camarada de suor, prontos evidentemente a abandoná-lo se lhes disputasse a bica de água ou a sombra do descanso.
- Não faças caso, homem! Mas também eles tinham ouvido a palavra reveladora, e também eles acordavam para uma compreensão exacta do seu significado. E ao despegar, à noite, havia já em todos um sentimento de cautela, de resguardo, que insensivelmente os ia afastando dele como de coisa imunda e contagiosa.
- Hoje na cava, à hora do almoço, a Margarida chamou leproso ao Julião. E, se calhar, aqueles nascidos na cara.
Diziam isto ao lume, na paz da cepa a arder e da candeia de azeite a bruxulear. Mas as palavras traziam dentro uma tal guerra, um tão grande poder de expansão e de voo., que no dia seguinte, pela boca da mulher do Carriço, corriam a aldeia de lés a lés.
- Leproso?! Santíssimo, Sacramento! E a gente a comer com ele do mesmo prato!
Era um toque a rebate de cima a baixo, uma instintiva solidariedade de defesa da tribo.
- Jesus, Maria! Lepra! E abruptamente, da noite para o dia, o Julião encontrou-se só, danado, excomungado, olhado como um inimigo repelente.
- Então vossemecê não precisa de gente para a malhada?
- Não. já tenho.
- E de um homem que lhe roce mato?
- Também não. Este ano remedeio-me assim. Batiam-lhe com a porta na cara, sem piedade, cruel e friamente.
- Tu chega-te para lá! - gritou-lhe o Travassos, em plena feira, quando ele se aproximava de uma saca de pão.
Ainda lhe passou pelos olhos um relâmpago de sangue. Mas acabou por reconhecer que, desgraçadamente, o outro tinha razão. O seu mal pegava-se e era a praga mais negra que se podia rogar a alguém. E., em vez de reagir, começou a miná-lo uma tristeza resignada, apática e cheia de perdão. Ou da fraqueza que sentia, ou da doença, ou a malucar na sorte, passava os dias deitado ao sol, numa aceitação mansa da condenação.
- Então tu ficas assim, não dás um passo para te tratar?
Foi um velho, o Januário, que teve a humanidade destas palavras. Talvez porque a vida já lhe pesava pouco e começava a ver o destino de cada alma a uma luz transcendente, rompeu a muralha de nojo, que a povoação construíra à volta do infeliz, e chegou-se a ele com este bálsamo.
- Vai ao médico, homem! Pode nem ser o que dizem. E, se for, tratas-te. Hoje cura-se muita coisa. Dás entrada num hospital.
O Julião ouvia-o como se as palavras que dizia tivessem um som doirado e viessem de mundos só de paz e de amor. Há muito que se esquecera da antiga e natural voz humana, quente e aproximadora. Só se lembrava do gume das últimas ofensas, do círculo de rumor hostil que o rodeava.
- Ó ti Januário, bem haja! Bem haja!
O outro partiu, e ele ficou a relembrar a doçura do conselho, a encostar todas as chagas à suavidade daquela ternura.
- E é que vou mesmo! - disse por fim com decisão, como se quebrasse corajosamente invisíveis amarras que o prendessem.
Estava fraco e maltrapilho. Mas, com as fracas forças e a fraca roupa, lá se arrastou a Sanfins e bateu à porta do doutor, que o atendeu da janela.
- Queria consultar vossa senhoria.
- Muito bem, desço já. Antes mesmo de se queixar, leu a sentença nos olhos arregalados e perscrutadores do médico.
- Donde é você?
- De Loivos.
- É curioso que nunca lá vi casos destes. Há quanto tempo isto lhe apareceu?
- Sempre é lepra?
O médico olhou-o, coçou a cabeça, pôs-se a mexer nos papéis da mesa, e acabou por dizer a triste verdade.
- Pois é, é. Infelizmente, é.
Nem falaram de remédios, nem de hospital, nem de nada. Despediram-se o mais tristemente possível, sem o doente perguntar quanto devia e sem o médico indicar o que era conveniente fazer. Ambos se resignavam sem luta àquela fatalidade monstruosa. O doutor ficava com o nome miraculoso e com a sabedoria inútil; o gafado, ia mostrar ao mundo, de mão estendida, a sua repugnante desgraça.
Propriamente em Loivos davam-lhe pouco.
O facto de ser da terra, um testemunho, portanto, de que nela cresciam tão negros males, e um sentimento estranho de defesa irracional impediam-nos de qualquer acto genepso para com ele. Mas os povos em volta, precisamente por razões opostas, recebiam-no caridosamente, solidários com uma dor que não lhes envergonhava o berço e os comovia apenas durante os segundos de um padre-nosso.
Uma estranha mudança se operava entretanto na alma de Julião. À medida que o tempo passava e que a doença se tornava mais evidente, nascia-lhe um maior apego à vida.
E também, com o andar dos tempos, uma raiva funda a Loivos lhe crescia no peito. À primeira aceitação pacífica e humilde da reacção desumana do povo, sucedera-se uma consciência clara e pungente de aviltamento injusto. Não tinha culpa de semelhante miséria.
Uma fatalidade superior a todas as forças escolhera-o para vítima indefesa. E os amigos, os vizinhos, a gente com quem nascera, brincara, mourejara de manhã à noite, corriam-no do afecto e das portas como um cão danado! ódio. ódio era o que lhe pedia hora a hora o coração, outrora limpo e generoso, e agora a empurrar um sangue podre e abjecto. E entre este rancor aos que no passado amara, e a procura contínua de qualquer remédio impossível que o livrasse da pesada cruz, passava o tempo.
- Você já experimentou azeite? - perguntou-lhe um dia em S. Cibrão uma velhota.
Dizem que é como quem dá um talhadoiro. Tem é de se tomar um banho nele.
A economia de pedinte que o Julião organizara metodicamente permitira-lhe já ensaiar mil mezinhas, um ror de drogas, e consultar até a santa de Nogueiredo. Melhoras nenhumas, infelizmente. Mas, quanto mais a via fugir, mais amava a vida. Caíra-lhe ainda há pouco o polegar direito, a cara, inchada, nodulosa e deformada, dava-lhe um estranho e horrível ar de bicho, não sentia pedaços inteiros do corpo. Amava, contudo, o mundo e queria continuar seu filho. Do fundo do poço onde dia a dia iam ficando enterrados, os seus olhos cada vez gostavam mais de ver a clara nitidez do sol.
- E que azeite é? - perguntou, com a sofreguidão que punha sempre em cada esperança nova.
- Azeite natural, da comida. Azeite.
A colheita do ano fora escassa e a região de Loivos não era rica em olivais. O Julião, porém, com manha, lamúrias e algum dinheiro, lá conseguiu que em Paradela lhe cedessem um cântaro dele. E já na semana seguinte pôde usar a receita.
Foi em plena serra e no. tanque da fonte da Senhora da Agonia que fez a aplicação.
Esvaziou o depósito de pedra, tapou-o, deitou-lhe dentro o líquido milagroso, e despiu-se, seguro que ninguém o surpreenderia, porque escolhera a hora da sesta e a capela ficava num ermo. Só ele e a santa podiam olhar aquele monte de carne a apodrecer, a despegar-se, e ao mesmo tempo a dar uma impressão grotesca de renovo, numa proliferação desconforme.
Do mocetão que fora há pouco tempo ainda, restava agora um trambolho, engelhado aqui, balofo adiante, comido de mal da raiz à ponta. Os pés eram patorras informes, onde não se viam unhas nem veias; as pernas, ulceradas, pareciam pinheiros cascalhudos, sangrados sem piedade; no peito, medravam a esmo caroços,, sôfregos como cogumelos num toco carunchoso. Mas no rosto é que os estragos da devastação se mostravam mais cruéis. Dir-se-ia que lhe tinham colado à cara natural bocados toscos de barro vermelho, numa tentação demoníaca de caricatura impiedosa. Nenhuma imaginação humana, por mais rica e ruim, seria capaz de deformar tanto a fisionomia dum ser.
Mas ainda assim o Julião teve fé. Olhou-se compassivamente, deixou que duas lágrimas rolassem vagarosamente dos olhos inflamados por sobre os tortulhos dos malares, e meteu-se dentro da pia.
O azeite fino de Paradela brilhava ao sol como um loiro e delido mel. E o corpo podre, daí a nada, coberto dele, era uma estranha fonte, a deixar escorrer em cascata fios leves e ligeiros, que a luz tornava quase irreais.
Infelizmente, as chagas e os bubôes da lepra foram insensíveis ao banho purificador.
E o Julião, depois de alguns dias de esperança, incerteza e desilusão, esqueceu-se de si e da sua tragédia, para começar a pensar noutra coisa: reaver os cinquenta mil reis que dera pelo remédio enganador.
Na mesma vasilha onde o trouxera de Paradela, aí o tinha ele, um pouco minguado, é certo, mas transparente e perfumado. Quem seria capaz de lho comprar?
Pensou, pensou, e o ódio cada vez mais vivo que tinha a Loivos mostrou-lhe a solução do caso. O Nunes, pois quem havia de ser?
Pela calada da noite, meteu-se a caminho. E quando o dia rompia fresco e limpo, estava ele à porta do vendeiro a oferecer a mercadoria.
- Não compro coisas roubadas - disse o Nunes, com a alma de traficante a fazer contas ao lucro.
- À salvação que não é roubado! Foram-me dando umas pingas, juntei-as, e agora vendo-o por inteiro. Há-de faltar pouco para um cântaro.
- Ora deixa lá ver. - É fino que lho digo eu. - É de azeitonas, olha a riqueza! E não chega à medida. Se queres trinta mil réis... E é se me garantes.
- Então se eu o fosse roubar, não roubaria o cântaro inteiro? Valha-o Deus!.
Os trinta escudos entraram no bolso sujo do Julião, o liquido sumiu-se na fimdura de uma talha, e a vida continuou.
Mas depois de o azeite consumido no caldo verde que Loivos comeu nessa semana, sem se saber de onde vinha nem de quem, uma notícia aterradora começou a correr de boca em boca:
- O Julião tomou banho num almude de azeite e vendeu-o depois ao Nunes.
- Ó mulher, nem a rir me digas isso!
- É verdade!
Ficavam como petrificados, invadidos de nojo, agoniados, a deitar contas à última almotolia que tinham comprado. E no fim, quando a dura certeza se lhes impunha, queriam arrancar o estômago, as entranhas, purificar-se da peçonha, vomitar no mesmo instante a lepra de que já se sentiam contaminados.
- Excomungado seja ele nas profundas dos infernos! Que nem os ossos lhe tenham descanso na sepultura! Que nem a terra o coma!
Eram pragas desmedidas,. impotentes, saídas de todas as bocas e de todos os corações. Ninguém se lembrava de fazer um exame de consciência a ver se alguma razão poderia atenuar as culpas do desgraçado. Cegamente e instintivamente, atiravam-lhe as piores pedradas que podiam, somente a espumar e a ranger os dentes.
Passada essa hora de pânico, começou a devassa cautelosa ao número exacto dos consumidores do veneno. Prudente, a terra queria saber ao certo quem era puro ou impuro.
Para agradar aos mais poderosos, que melhor o podiam defender da ira dos outros, o Nunes ia revelando à boca pequena o nome de alguns fregueses a quem vendera da negregada mixórdia. E cada denúncia aumentava o monturo intangível dos condenados.
Até que ao fim de pouco tempo contavam-se pelos dedos as excepções. Ou porque o Nunes mentia, ou porque os sujos queriam conspurcar os limpos, ou porque é uma natural tendência dos homens baralhar o jogo, e morra Sansão e quantos aqui estão, segue-se que em breve já não se sabia verdadeiramente quem em Loivos estava maculado ou não. E o recurso era vigiarem-se mutuamente, e cada qual a si mesmo., calados, sorrateiros e apavorados. Esperavam todos pelo brotar da semente maldita que a mão excomungada semeara neles.
Mas como ninguém, ao fim de um espaço que lhes pareceu de pesadelo, apareceu com sinais do mal, e como as sachas, as regas, as malhadas e as romarias podiam mais do que uns simples litros de óleo engolidos e digeridos, a luz do caso começou a apagar-se.
Estava contudo cada vez mais aceso o rancor ao Julião. Ao labéu infamante do seu mal nado e criado no povo, juntara-se o pecado mortal do atentado contra a existência de cada um. E a terra inteira, irredutivelmente, determinou que aquele filho vil nunca mais lhe pisasse o chão.
Cada vez mais repugnante, o leproso continuava a esmolar pelas redondezas. Depois das crianças, eram agora os adultos que lhe fugiam horrorizados. E a esmola vinha-lhe na ponta dos dedos, ou caía das varandas na copa furada do chapéu. Mas insistia em viver, agradado dos montes, da neve, das árvores, da vida, afinal. A consciência do que fizera àqueles que por ser infeliz o renegaram., arredava-o, temeroso, dos termos do lugar nativo.
Olhava de longe a povoação e, embora odiasse os homens, sentia uma ternura singular pelos pardieiros onde o tempo pusera uma beleza que não encontrava em mais parte nenhuma. Fugia contudo dela como de uma perdição.
- De onde é você?
- De Loivos.
E continuava a caminhar no sentido oposto das palavras.
Não estava velho ainda. Se o dedo do destino não lhe tivesse tocado, seria agora um homem no vigor dos anos, cheio de seiva madura e De serena esperança. Mas desmantelado pela gangrena, putrefacto e repelente, via a morte aproximar-se dele minuto a minuto.
Foi num Agosto quente, seco, que sentiu a sombra da sua derradeira hora. E, por mandato de uma força imperiosa, começou a arrastar-se em direcção ao berço.
- Então vossemecê que tal vai? - perguntou-lhe no Fetal uma alma compassiva.
A laringe roída mal podia falar. Regougou:
- Malzinho. Na última.
E lá continuou a empurrar os cepos das pernas e a cabeça medonha e pesada, de abóbora porqueira criada em terra de ruim amanho.
Entrou na povoação depois da merenda, quando todos regavam.* Só a Zulmira lavava roupa no tanque do largo. Mas a rapariga deu tal grito ao vê-lo, chegou à veiga tão espavorida, que daí a nada, por toda a parte corria gente a acudir. Largavam a água ao Deus dará, deixavam os milhos a estornicar ao sol, e galgavam paredes, saltavam valados, cegos atrás do nome do leproso.
O Julião, entretanto, tivera a noção do perigo em que se metera. E, embora viesse ao encontro da sepultura, por um instinto rudimentar de conservação, virou de rumo e sumiu-se o mais depressa que pôde nos matagais da Bouça.
- Que direcção levava?
- Ia pela rua acima - gritava a cachopa, ainda a tremer.
Farejavam desvairados pelos soutos, pelas vinhas, como quem procura um lobo culpado de mil crimes. Armados de forquilhas e de enxadas, batiam maciços, procuravam nas minas, numa excitação raivosa de cães de caça.
- Ele aí está! - denunciou por fim, triunfante, o Carvalhosa, que tinha sido companheiro do Julião nos dias longínquos do Doiro, e que havia comprado de certeza do azeite infernal.
- Aonde?
- Ali! Não se via vulto nenhum. Apenas o mexer contínuo e linear das urgueiras pelo monte fora revelava a passagem por entre elas de alguém que caminhava lentamente.
- Corram alguns pelo ribeiro e outros subam ao barranco!. - gritou o Lúcio, que os comandava.
- É escusada esta trabalheira toda - disse então sinistramente o Ambrósio. - Liquida-se o caso de outra maneira. Quem tem fósforos?
- Eu - respondeu o Alípio sem pensar.
- Dá cá.
Só então compreenderam claramente a intenção do outro. Nos seus corações não estava o castigo tão definido. Mas nenhum quis dar provas de fraqueza ou mostrar falta de zelo pelo bem de Loivos. De resto, a primeira carqueja ardia já.
E foi uma embriaguez de vingança e de animalidade. Uma vez que a fogueira se erguera, todos a queriam atear mais, cegos de calor e de irresponsabilidade. Os codessos desapareciam devorados pela boca das chamas, nuvens de fumo levantavam-se e abriam-se em clarões, e os homens uivavam, gritavam, praguejavam, possessos de crueldade.
- Depressa! Acende ali! Atrás do Julião o rio de lume rolava como uma avalanche. E o leproso fugia àquele castigo terrível com as forças que lhe restavam, a espetar o toco dos pés nos tojos arnais.
Com ramos secos acesos iam rodeando o monte de pequenas labaredas, que começavam indecisas, fumarentas, e acabavam por se levantar fortes e devoradoras.
- Está cercado! - exclamou por fim o Ambrósio, seguro do êxito, ao ver a roda de lume a apertar a encosta. - Pode correr e saltar, que já não foge.
Alguém, na aldeia, sem ordem do prior, tocava os sinos a rebate. Um alarido de festa circundava o incêndio, que até no céu refulgia abrasador.
- Agora que encomende a alma a Deus.
Exausto, sem uma aberta de esperança, sufocado, o Julião lutava sempre. Células aparentemente mortas acordavam, os nervos destruídos pareciam sentir e reagir, e os olhos, quase cegos, abriam-se num esforço derradeiro para descortinarem um caminho de salvação. O mar de labaredas, porém, era redondo. E quando a fogueira lhe apertou o garrote, deixou-se finalmente cair.
Apesar da palavra maldita que ouvira na mocidade, nunca esperara uma morte assim.
Contudo, aceitava agora em paz que ela viesse coroar uma luta tão dura e sem perdão.
- Pronto! - gritou o Ambrósio, num remate que exprimia o alívio de todos. - já está.
A derradeira ilha de mato acabara de arder e a multidão correu insofrida sobre o chão ainda a fumegar.
Mas o corpo do Julião não estava inteiramente desfeito como desejavam. Era um grande e negro tição, que dificilmente se distinguia do tronco de um sobreiro mal queimado.

Texto. Miguel Torga - Os Novos Contos da Montanha(6) - O Leproso