Audio Livro e Texto. Miguel Torga - Os Novos Contos da Montanha(8) - O Lopo.

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- Perdeste - anunciou sem rodeios o Dr. Canavarro, quando o Lopo entrou.
- Oh, senhor doutor, nem a brincar!
- Perdeste - reforçou o advogado, a fazer balançar o mata-borrão sobre a banca. E acrescentou: - Recebi ontem à tarde a notícia da sentença. Tive de telefonar para Lisboa, e disseram-me do Tribunal.
O Lopo, que desde as primeiras palavras estacara à entrada do escritório, mordeu o beiço por debaixo do bigode espesso, pôs-se a desandar o chapéu na mão e ficou assim um pedaço. Por fim, lá conseguiu abrir a boca.
- Então perdi?!
- É como dizes.
- Custas e tudo?
- Tudo.
- Bem, pronto, não se fala mais nisso. E muito obrigado. O outro já saberá?
- Não. A notícia só lhe deve chegar de aqui a dois ou três dias. Eu soube-a particularmente.
- Então dou-lha eu.
O velho dr. Canavarro parou de embalar o bloco e fitou o Lopo. Depois, calmamente, perguntou-lhe:
- Tu não estás de mal com ele?
- Estou, mas que tem lá isso? As pazes fazem-se depressa. Ganhou, que hei-de eu fazer? Digo-lho.
- Bem, arranjai-vos lá. Quarta ou quinta da semana que vem., aparece, para se ver quanto deves. Sabes que a justiça não perdoa.
- Há tempo.
- Olha que eles gostam pouco de esperar
- Esperam...
O Dr. Canavarro, através dos óculos, ia lendo no rosto anguloso do Lopo o significado de cada palavra que dizia.
- Quarta ou quinta- insistiu.
- Pode calhar - respondeu o outro, já com metade do corpo fora da porta.
Era Janeiro e a manhã parecia de Maio. Um sol branco, diáfano, fazia brilhar as clarabóias da Vila, cobertas da geada da noite. Pelas ruas a cabo, gente de sobretudo passava apressada.
- Vamos comer alguma coisa? - propôs o Marrau, que o esperava no estanque do Castro.
- Pode ser. Nada na figura e nos modos do Lopo denunciava o desespero que o lavrava.
- Em casa da Areias?
- Está bem.
- Se houvesse tripas, é que era! - lembrou o outro, guloso.
- Talvez haja. Mas não havia.
Tenho raia - informou a estalajadeira, a limpar as mãos gordurosas ao avental.
- Fumega?
- Isso é cá comigo. - respondeu a velha, num sorriso que fazia crescer água na boca.
- Pois venha ela!
Sentaram-se os dois a uma mesa coberta de oleado aos quadradinhos e almoçaram como príncipes.
- Vai uma cigarrada ? - ofereceu o Marrau no fim., depois de a conta paga.
- Uma vez por festa - aceitou o Lopo, com bonomia. - E deixo-te - acrescentou.
- Homessa! Cuidei que íamos juntos mais.
- Já fiz o que tinha a fazer e vou andando.
- Eu também pouco me demoro. É só ir às Finanças pagar a décima.
- A repartição não abre antes das duas. Fica-me tarde.
Disseram até logo à saída da porta, e enquanto o Marrau, desapontado, cortou a direito em direcção ao centro da Vila, o Lopo meteu pela calçada que levava à ponte e ia acabar na estrada de Carvas.
Pelo caminho, duas léguas bem medidas de serras e de carvalhais, nem o ar lavado das fragas nem a serena calma de tudo conseguiram arredar o Lopo das suas cogitações.
Andava ligeiro, aéreo, sem ouvir as tachas das botas de atanado a rilhar o macadame. Mas só por dentro é que ia assim. Por fora, respondeu a todas as pessoas que encontrou e o salvaram, e em Lobrigos, seco dos finos da raia, bebeu um quartilho, sem que o taberneiro desse conta de qualquer nuvem a turvar-lhe o semblante.
- Então adeus, ti João!
- Adeus., Manuel. Vais-te chegando ao borralho?
- Não há remédio... - respondeu, já na rua.
Até Carvas foi o mesmo quebra-cabeças. Os montes iam passando, o rio Verdeiro cachoou-lhe nos ouvidos, levantaram-se perdizes a dois metros., e o Lopo sempre a andar, calado e sério.
No Caleirão deixou a estrada e meteu pelas matas. Depois desandou à esquerda, atravessou o souto do Ró, e chegou à entrada da mina que lhe fora roubada.
Da boca escura que abrira na fraga, a picareta e a dinamite, Deus sabe com quanto suor, saía um bafo quente como o de quem respira.
O cascalho,, o saibro e o lodo que arrancara às entranhas da serra tinham ainda a cor e o cheiro de carne dilacerada. E o rego de água que, cauteloso, saía da escuridão, e a cantar se punha a correr pela encosta abaixo, era como que uma veia aberta do seu próprio corpo.
Religiosamente, debruçou-se sobre o regato, meteu nele a mão calosa, encheu-a, e deixou cair em cascata a liquefeita frescura de três meses de trabalho.
- Cá fica. - murmurou.
E ergueu-se. Se aquela visita íntima e secreta o comovera, estava de novo sereno e senhor de Si. Pelo menos em casa também a mulher, como os outros, não lhe notou qualquer alteração.
- Já vieste?! - admirou-se ela, ao vê-lo chegar tão cedo.
- Vim. - respondeu, naturalmente. - Arranjei o que tinha a arranjar apenas cheguei, que ficava lá a fazer ?
- E então? Que disse o advogado?
- Ainda não sabe nada. A tarde desceu serena, a esfriar de hora a hora e a levedar um segredo profundo, calmo, de toda a natureza.
- Boa noite!
- Boa noite, senhora Dona Rosa.
Era a professora de Guiães que passava de cadeirinha, empoleirada na burra do Amarante, e o Lopo, depois de corresponder ao cumprimento, voltou novamente a olhar as favas que despontavam no quintal.
- Manuel, posso lançar o caldo?
- Podes. Entrou, sentou-se, pegou na malga e começou a comer, enquanto lá por dentro continuava na sua labuta. Mas a mulher, que lhe conhecia o feitio ensimesmado, não deu por nada.
- Demoras-te ? - perguntou no fim da ceia, ao vê-la avivar o lume.
- Tenho ainda que lavar a louça.
- A modos que me está a dar o sono.
Mete-te na cama.
A Rita ficou a cirandar pela casa, e quando se foi deitar já o encontrou a dormir, tão imóvel e repousado no seu canto que nem a sentiu.
Ao romper do dia, como habitualmente, ergueu-se ele primeiro. Lavou-se, tirou da arca a costumada côdea de pão, matou o bicho com aguardente, e foi à sala buscar a arma.
- Vou dar uma volta.
- Hoje?! Cuidei que escavavas o bardo.
- Vou... Parece que anda uma lebre na Alcaria.
Ao vê-lo atravessar o quinteiro e seguir pela quelha abaixo sem assobiar ao cão, a Rita estranhou. Mas não fez mais caso.
Embora o dia começasse apenas a clarear, mostrava já o que viria a ser: ainda mais escarolado de que o anterior e mais frio. Bom tempo para saibrar e repor. Não havia memória dum inverno tão seco e tão gelado. Nas poças de água o codo era de palmo.
O carreiro da veiga por onde o Lopo meteu parecia de cristal. E cada passo que dava ia libertando as ervas que o sincelo prendera. Caminhava ligeiro, atento, com a espingarda pendurada ao ombro pela bandoleira, de canos voltados para o chão. Não queria ser visto e em Carvas a vida principiava cedo. Felizmente, quando a manhã se abriu de todo, e o leque de povo se abriu também nas leiras, já ele se distanciara da zona de perigo.
Situada no termo da povoação, a quinta dos Balaus era uma propriedade vedada, onde o Sr. Casimiro, o homem que lhe tinha roubado nos tribunais a posse da mina, mourejava de sol a sol. Na ocasião, podava à beira da estrada a vinha nova, toda enxertada de moscatel, donde saíam dornas e dornas de uvas, no Setembro. Rico e manhoso, movia montanhas a cavar o dia inteiro, sem ninguém descortinar como conseguia ter Portugal nas mãos quase sem sair da terra.
Do alto da Silveirinha, o Lopo, lobrigou-lhe o vulto ao fundo, debruçado, maciço, ainda mal desenhado na penumbra da manhã. Fez de conta que nada e continuou a caminhar mergulhado nos seus pensamentos.
Passada a encruzilhada de Fermentões, a estrada afundou-se entre barrancos. Só ao cabo de mais de cem metros é que novamente o horizonte se rasgou. Mas apenas dum lado. Porque do outro erguia-se agora o muro da quinta, por detrás do qual o ladrão do seu trabalho tirava os olhos cegos às videiras.
Chegou-se adiante, ao portão, espreitou por entre as grades, e calculou exactamente a que sítio do caminho vinha ter uma perpendicular tirada do sujeito. Depois, sem pressas, chegou-se a esse ponto e subiu à parede.
Agachado e embrulhado no varino, a crucificar o presente em nome do futuro, o senhor Casimiro lá continuava no seu afã de impor ao sono das cepas um despertar fecundo. Tanto empenho punha no trabalho que nem dava conta do que se passava à volta.
E foi preciso o Lopo gritar duas vezes para que sentisse ruído e se erguesse a ver o que era.
- Sou eu - disse-lhe então o Lopo, direito em cima do muro, com ele já no ponto de mira.
- Sou eu que lhe trouxe este recado da Vila.
O tiro partiu, o podador caiu de bruços sobre a videira, e o sol por detrás dos montes começou a tentar encher o dia de inverno de uma luz doirada de primavera.
O Lopo, então, saltou ao caminho, regressou a casa pelo Lenteiro, depois de atirar a caçadeira a um poço, e falou assim à mulher:
- A questão está perdida e o ladrão já foi prestar contas a Deus. Sigo agora para Fermentelos, a ver se o Grilo me arranja dinheiro e passo a fronteira ainda esta noite.
Embarco em Vigo. Não levo nada, para ir mais leve e ninguém desconfiar. Tu ficas aqui, muito calada, até eu dar notícias. Adeus, e não chores.

Audio Livro e Texto. Miguel Torga - Os Novos Contos da Montanha(8) - O Lopo.