Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 003

Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 003

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A MEMÓRIA DO OUTRO. O SISTEMA DE VALORES DOS TRANSMONTANOS NO ESTADO NOVO. Albano Viseu.

3. Metodologia de trabalho e pressupostos orientadores do estudo.

O tema escolhido para estudo será aprofundado, recorrendo à observação, análise e inter-
ligação de um universo de memórias, recolhidas através de entrevistas, e à consulta de
alguma bibliografia específica, produzida, essencialmente, pelo autor 10 .
Os entrevistados serão questionados sobre o mesmo suporte de memórias, a fim de
se poder estabelecer um quadro comparativo entre as vivências e as recordações que
remetem para um mesmo cenário histórico: o tempo e as memórias do Estado Novo, no
espaço rural e em outros espaços, nos anos 60 e 70.
O governo e alguns particulares estiveram empenhados numa certa modificação do
cenário económico e social dos portugueses desse tempo. A cultura e a mentalidade
foram condicionadas por parâmetros desenvolvimentistas e pelos quadros forjados pela
ditadura, como sendo essenciais e necessários para não fazer perigar o regime.
Houve pessoas que não conseguiram viver sempre dentro do espaço rural, pois
tiveram de migrar, pelo que tomaram contacto com diferentes mundos de partilha: o
mundo rural de pertença e o espaço de apropriação para onde foram viver e lhes passou
a pertencer.
A dificuldade do encontro com o outro, com o português de outras regiões, de cen-
tros decisores e da máquina do regime, deve ter condicionado o acesso à informação e de
ficar ao corrente do que passava no país.
O fenómeno da mudança trouxe um conjunto de transformações que provocaram
desequilíbrios que se torna necessário conhecer, a partir da voz dos «sem voz» da socie-
dade portuguesa 11 .
No fundo, pretende-se recolher e analisar as memórias retidas pelas pessoas de locais
diferentes, para ver até que ponto viveram e assimilaram as mudanças por que passou o
país, e se o mundo rural, em que primou o isolamento territorial e cultural, se identifi-
cou com outros espaços e com o todo nacional na apropriação de memórias de um
mesmo tempo histórico.
O meio rural será representado pela freguesia do Romeu, cuja história tem vindo a
ser estudada pelo autor, espaço em que serão entrevistadas apenas 20 pessoas, devido à
sua baixa densidade populacional.
Os habitantes do Romeu ficaram a conhecer nitidamente as características do
regime, devido ao seu isolamento parcial, representado pela mudança de polaridade
desenvolvimentista para Vale de Couço, onde se localizava a escola Primária, a Casa
Menéres, a Casa do Povo e onde passava a Estrada Nacional e o caminho-de-ferro?
Os outros locais do país corresponderão a espaços diferentes, dando prioridade à
área mais próxima, constituída pelo núcleo de memórias, Mirandela, e muitas das suas
aldeias, estendendo-o, depois, a vilas como as de Macedo de Cavaleiros, Vila Flor, Murça,
Mogadouro, Vinhais e Moncorvo e alargando-a, depois, às cidades de Bragança e de Vila
Real. Esta escolha será enriquecida, se lhe forem acrescentadas as memórias de pessoas de
espaços importantes de captação (Coimbra, Lisboa e Santa Comba Dão) e de outras
regiões do país.
Serão realizadas 50 entrevistas, nesta área alargada, devido à sua dimensão territorial.
Os entrevistados do Romeu e de outros locais serão questionados sobre a mesma
abrangência temática, a partir de um guião de entrevista idêntico, a fim de se verificar se
foram apreendidas as características do regime e para que, com base nos dados levanta-
dos, se faça a sustentação do presente estudo.

Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 003.