Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 004

Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 004

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A MEMÓRIA DO OUTRO. O SISTEMA DE VALORES DOS TRANSMONTANOS NO ESTADO NOVO. Albano Viseu.

4 – A Memória do Outro: o sistema de valores dos transmontanos (anos 60 e 70 do século XX)

O Universo de estudo ficou constituído, aleatoriamente, por 20 pessoas do Romeu e por
50 de outros locais do país, apresentando a amostra as seguintes características: Ver grafico neste sitio.

A diferença do número de elementos entrevistados ficou a dever-se a uma resposta
mais limitada da parte das pessoas da freguesia do Romeu, em relação a outros locais, no
ano da realização das entrevistas (2003).
Os restantes dados recolhidos foram trabalhados e cruzados, obtendo-se uma per-
centagem para termo de comparação.
Os entrevistados confirmaram que possuíam diferentes tipos de memórias:
– os habitantes do Romeu – muitas memórias (25%) e algumas memórias (75%);
– os habitantes de outros locais – muitas memórias (14%); algumas (52%); poucas
(30%); não responderam a esta questão (4%).

Estabelecendo uma comparação entre as características apresentadas pelos dois
espaços de estudo (Romeu; outros locais), constatamos que:
– a maior parte das pessoas entrevistadas eram casadas (90%; 80%);
– registou-se um certo equilíbrio, em termos de género, nos dois universos de
estudo;
– as pessoas pertenciam à população não activa (35%; 24%) – com destaque para as
domésticas, sobretudo no Romeu, e os reformados – e à população activa (65%;
76%). E estas estavam integradas nos seguintes sectores de actividade: primário
(42%; 21%), secundário (0%; 13%) e terciário (58%; 66%);
– foi significativo o número de pessoas licenciadas, fora do Romeu (10%; 38%), e
com a 4.a classe, na freguesia do Romeu (60%; 22%);
– ainda havia focos de analfabetismo nos dois espaços em estudo (5%; 6%) e de pes-
soas com a 3.a classe (10%/6%);
– a maior parte dos moradores do Romeu viveu, na época em estudo, no meio rural
(75%), e apenas 5% no estrangeiro, enquanto os moradores de outros locais vive-
ram no meio urbano (46%), nas colónias (18%), no estrangeiro/ emigração (10%)
e só um pequeno número no meio rural (14%).
Na análise, foi considerado o meio misto, traduzindo este fenómeno a ruralidade e
a partida de muitas pessoas, após finais dos anos 70, para as vilas ou para as cidades mais
próximas ou para a emigração.
As migrações internas e externas provocaram o despovoamento e o abandono de
vilas, aldeias e lugares do interior transmontano.
4.2. A S M EMÓRIAS C RUZADAS DE( ANOS 60 E 70 DO SÉCULO XX) UM TEMPO H ISTÓRICO.
As memórias mais marcantes, registadas nas duas áreas de estudo, foram as seguintes: ver gráfico neste sítio.

Os fenómenos históricos evocados foram muito parecidos, a nível económico,
social, político e cultural, nos dois espaços, verificando-se uma coincidência das seguin-
tes memórias mais recordadas:
a) a nível de memórias económicas: a vida ligada à agricultura tradicional e à cria-
ção de gado; as dificuldades económicas, a fome e a miséria; a alimentação baseada
nos produtos naturais. Foi também recordada a acção da família Menéres ao criar
emprego, ao melhorar infra-estruturas e equipamentos e ao dinamizar a economia
local, regional e nacional.
b) a nível de memórias sociais: a emigração e o êxodo rural; o difícil acesso à saúde,
à assistência médica e aos medicamentos; o controlo sobre os hábitos da mulher; a
relação entre os trabalhadores e os patrões; a lentidão do tempo em meio rural.
Foram ainda referidos: os 3 EFES; o papel da mãe e a ausência do pai na educação
dos filhos; questões de honra e de vergonha; preconceitos; a casa transmontana
(uma imagem da Casa Portuguesa); alterações sociais.
c) a nível das memórias políticas: a guerra colonial e o serviço militar; a falta de
liberdade, a PIDE, a opressão e o autoritarismo; os discursos e as cerimónias de
publicidade ao regime.
Foram também referidos: a função do Regedor e do Cabo de Ordens; o tempo de
governo de Marcelo Caetano; acontecimentos políticos locais, nacionais e mundiais.
d) a nível das memórias culturais: o analfabetismo e as dificuldades daí resultantes;
as festas, romarias e inaugurações; as dificuldades de acesso à cultura e à educação;
o culto aos heróis e aos símbolos nacionais; a Alegria no Trabalho.
Analisemos, agora, as memórias, a partir das quais se pode traçar a identidade do
regime do Estado Novo, para verificar como foram interiorizadas nas duas áreas em
estudo.
Os entrevistados mencionaram um vasto leque de referências que os remeteram
para o tempo histórico analisado no presente estudo.
Houve memórias mais marcantes e estigmatizadoras que foram mais quantificadas
que outras. Mas todas elas marcaram os entrevistados, as suas famílias, os seus amigos,
vizinhos e conhecidos.
A abrangência de um processo limitador e afrontador, capaz de criar mal-estar e dis-
plicência, pode ter sido sentida em ambos os mundos de pertença pelos indivíduos que
se sentiram confrontados com o poder, com os seus sinais de domínio e com formas que
impediram a liberdade e o acesso à educação, à saúde e à cidadania activa.
Ao estabelecer a comparação entre as imagens identitárias do regime, poderemos
constatar que há uma certa aproximação na maior parte delas, porque:
a) algumas, são comuns: a falta de liberdade, a opressão, o autoritarismo, a acção
exercida pela polícia política e o peso que o analfabetismo teve na sociedade portu-
guesa da época em estudo; a vida de muitas dificuldades económicas (racionamen-
tos, fome, miséria); a agricultura tradicional, os trabalhos do campo e a criação de
gado; a guerra colonial e o serviço militar; a emigração.
b) as memórias menos significativas para os habitantes do Romeu foram: o difícil
acesso à educação e à informação; a educação, a dedicação e a pontualidade; as rela-
ções entre trabalhadores e empregadores; a alimentação natural; as obras públicas;
enquanto que para os indivíduos de outros locais foram: a lentidão do tempo; a edu-
cação, o respeito, a dedicação e a pontualidade; o equilíbrio do orçamento e a valo-
rização do escudo; as relações entre trabalhadores e empregadores; o forte controle
dos hábitos da mulher; a autoridade local: regedor e cabo de ordens; Salazar, salva-
dor da Pátria: livrou Portugal da 2.a Guerra Mundial.
c) outras memórias, apesar de pouco referidas, foram valorizadas de forma dife-
rente: no Romeu, o governo de Marcelo Caetano; as festas, romarias e inaugurações;
a acção da Casa Menéres; a lentidão do tempo no meio rural; em outros locais, o
governo de Marcelo Caetano; as festas, romarias e inaugurações; o difícil acesso aos
serviços de saúde.
Algumas memórias foram apenas referidas pelos entrevistados de outros locais do
país: a valorização da História, dos heróis e dos símbolos nacionais; o forte apego à mãe;
as relações entre trabalhadores e empregadores; o forte controlo dos hábitos da mulher;
a autoridade local; Salazar, salvador da Pátria: livrou da anarquia e da 2.a Guerra Mun-
dial, equilibrou o orçamento e valorizou o escudo.
Estes factores identitários assumem algum valor como marca de suporte do regime,
pois as populações viram-se confrontadas com eles, tendo registado em suas mentes um
tipo de modelação.

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