Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 005 (Final)

Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 005 (Final)

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A MEMÓRIA DO OUTRO. O SISTEMA DE VALORES DOS TRANSMONTANOS NO ESTADO NOVO. Albano Viseu.

5. Conclusão
O pressuposto inicial remetia para o isolamento da aldeia do Romeu, uma vez que a
Estrada Municipal n.o 572 não tinha saída e era preciso voltar atrás, até atingir a EN n.o
15, em Jerusalém do Romeu, e para a dificuldade que os seus habitantes sentiriam para
ficar a par das ideias e de princípios do regime do Estado Novo.
Os estudos realizados provaram que essa ideia estava errada, porque: a família
Menéres sempre recebeu na sua casa solarenga, em Jerusalém do Romeu, figuras gradas
do regime que visitaram a região; os melhoramentos do Romeu dos anos 60 foram con-
cretizados em articulação entre Manuel Menéres e a Junta de Colonização Interna, o que
contribuiu para a divulgação da imagem do desenvolvimentismo e de ideias do regime; o
comboio transportou trabalhadores rurais, técnicos especializados, feitores, colaborado-
res da Casa Menéres, moradores da aldeia e suas visitas e, com eles, chegaram informa-
ções do que se passava no país e no estrangeiro.
Se no todo nacional pairou a mística fórmula do regime, as diferenças encontradas
na freguesia do Romeu explicam, por elas próprias, os resultados constatados.
A comunidade soube, realmente, ver-se «do outro lado do espelho», dando-se conta
de como viveu a sua história local e de como se encaixou na história nacional.
Algumas pessoas entrevistadas comprovaram que sentiram a fome, o racionamento,
a miséria e a falta de poder de compra, à imagem do todo nacional.
Os ordenados auferidos evitaram a muitos habitantes do Romeu ter de partir para
o estrangeiro e houve habitantes que emigraram e regressaram a esta freguesia, devido ao
tipo de vida que tinham adquirido.
O Programa das Aldeias Transmontanas Melhoradas e a assistência prestada pela
Casa Menéres evitaram a emigração em larga escala, o que se viria a verificar em muitas
aldeias vizinhas.
A falta de liberdade, a opressão e o autoritarismo foram consideradas, de entre as
memórias políticas, as mais limitadoras. E foram tão limitadoras e constrangedoras que
as pessoas da freguesia do Romeu, como se pôde confirmar, adoptaram uma posição de
defesa, pouco falando sobre assuntos políticos. Havia, até, o medo de se poder arranjar
uma carga de problemas.
A guerra colonial foi marcante e os estigmas de sofrimento e de dor que se cravaram
nas pessoas acabam por nos ajudar a compreender o valor dessa recordação.
As festas, as romarias e as inaugurações marcaram as celebrações culturais das
populações em geral. Foi problemática a questão do analfabetismo, do fraco acesso à cul-
tura e à educação e o difícil acesso à saúde e aos medicamentos. Todas estas dificuldades
afectaram tanto a população do Romeu, como a de outros locais do país.
Apesar de haver Escola Primária na freguesia do Romeu, houve algumas pessoas que
não a frequentaram: os filhos trabalharam na agricultura, para poderem comer e não pas-
sar fome; as filhas ficaram em casa a tomar conta da casa e dos irmãos mais novos.
Os entrevistados foram capazes de apontar características que traçaram a identidade
do regime político em que viveram, tendo considerado mais significativas: as dificuldades económicas, a fome e a miséria e, ainda, a falta de liberdade, a opressão e o autorita-
rismo do regime.
A sociedade portuguesa ficou moldada por uma educação marcada pela primazia de
certos valores que se foram mantendo e transmitindo ao longo dos tempos, antes que a
modernidade deixasse os seus traços e alterasse muitos dos valores tradicionais.
O pai ficava ausente da educação dos filhos e a mãe destacava-se, porque marcava o
«mundo dos afectos»: educava, moldava, modelava e controlava.
Este estudo mostra que houve pequenas diferenças pontuais no registo de memó-
rias, ligados a factores e a vivências dos cidadãos, e que a imagem identitária, traçada para
o regime, apresentou características idênticas.
Perante a caracterização dos dois espaços de estudo, e considerando o nível médio
de idades das pessoas que aceitaram responder às questões (64 anos no Romeu e 53 anos
nos lugares dispersos pelo país), constatou-se algumas dificuldades em reconstituir
amplamente vivências significativas, porque revelaram:
1.o – uma dificuldade em estabelecer uma ligação clara com o passado;
2.o – uma fraca conexão com os fenómenos históricos e com outros de cariz socio-
cultural;
3.o – a existência de um número considerável de analfabetos 12 ;
4.o – um certo receio em responder às questões (4 entrevistados no Romeu e 12 em
outros locais), o que deixa antever o forte peso de um passado recente que ainda leva
as pessoas a adoptar uma posição de defesa;
5.o – um certo desinteresse, parecendo não querer falar sobre um tempo que, ou os
marcou profundamente (houve até pessoas que choraram ao ser entrevistadas),
devido a imagens que se entranharam profundamente em si mesmas, pelo que lhes
custa fazer reviver, ou, ainda, porque não gostam de colaborar e vivem o seu mundo
muito à sua maneira;
6.o – o envelhecimento da população.
Apesar de o relevo ter condicionado a história das comunidades rurais, isolando-as,
criando-lhes dificuldades, levando-as a criar formas de subsistência e de partilha, num
comunitarismo que tende a desaparecer, há uma forte aproximação entre os dois mode-
los históricos estudados (Romeu/outros locais do país) e as pequenas diferenças pren-
dem-se com as vivências específicas das localidades.
O Estado Novo foi recordado como um tempo muito complicado, de muitas dificul-
dades e de se ter passado muito mal, pelo que alguns entrevistados formularam o desejo
de que «esses (tempos) que hoje nos lembrem e outros que cá não voltem!» e afirmaram
que o 25 de Abril deveria ter vindo muito antes e evitaria o sofrimento de muita gente.
Aparentemente tudo mudou no país e na região transmontana, nos anos 60 e 70 e,
mais especificamente, com a chegada da Democracia. As alterações mexeram com o tecido social e modificaram muitos padrões assumidos, até então, como necessários e
basilares.
Os modelos externos começaram a chegar ao mundo rural e levaram-lhe uma pro-
funda alteração, uma vez que este se foi deixando urbanizar e cativar por formas e por
bens de consumo que interferiram com os seus horizontes culturais e com as suas refe-
rências, a vários níveis.
Os aspectos positivos e negativos de mudança que referiram, verificados após o 25 de
Abril, foram os seguintes: entre os primeiros, a melhoria de condições de vida das pessoas
e das acessibilidades – o que quebrou o isolamento da região transmontana –, a melhoria
dos meios de comunicação e dos meios de transporte, o desenvolvimento da região de
Trás-os-Montes e do país, o trabalho passou a ser mais leve, os apoios sociais e os tempos
de lazer aumentaram; entre os segundos, a crise de valores que se instalou na sociedade
portuguesa: a falta de educação, de respeito pelas pessoas e de honestidade, a corrupção, a
materialização e o consumismo, a anarquia, o banditismo e a desumanização.
A mudança acentuou e proporcionou vários tipos de alterações, a nível de: padrões
de consumo; condições de vida; estrutura da população; disponibilidade de ter e de uti-
lizar a moeda; prestígio e autoridade dos órgãos do poder local; a visão do mundo; a
atmosfera geral da aldeia: a entreajuda levara a sociedade rural a ignorar o conflito, a
manter a proximidade e a igualdade social, mas estes elementos vão-se alterar; os campo-
neses, que sempre tiveram orgulho do seu trabalho, da sua relativa independência e dos
seus usos e costumes, ganharam consciência do seu baixo nível de vida e da inferioridade
social: razões para a mudança, para as migrações e para o esvaziamento rural.
A difusão das relações de mercado transformaram gradualmente a exploração fami-
liar camponesa e a urbanização, a aculturação e a difusão da cultura de massas propicia-
ram a destruição do isolamento das populações rurais.
Os camponeses sentiram a influência dos efeitos do meio e dos agentes externos e
passaram a ter mais tempo disponível para estar em contacto com os meios de comuni-
cação de massas.
A população do Romeu sentiu fenómenos (sociais, económicos, culturais, políticos
e religiosos) como outros cidadãos da mesma área e de outras regiões do país, pelo que
não ficou indiferente, perante os efeitos e as transformações que acabaram por afectar as
suas vidas.


Trás os Montes no Estado Novo. Albano Viseu. Parte 005.